terça-feira, 9 de abril de 2013

Naomi Wolf: "A cultura reprime o desejo das mulheres"



Naomi Wolf: "A cultura reprime o desejo das mulheres"

Por Paulo Nogueira*

CONCEPÇÕES
Naomi Wolf, feminista americana. Seu novo livro, Vagina, mostra como a ciência e a cultura trataram, historicamente, a sexualidade da mulher
(Foto: Francis Hills/Corbis Outline)

Ao publicar o mito da beleza, em 1991, Naomi Wolf se tornou uma das principais feministas do mundo. No livro, ela dizia que exigências opressivas de beleza eram uma contrapartida à emancipação feminina. Desde então, sua carreira foi sinuosa (para alguns, errática). Acusou o crítico literário Harold Bloom de assédio sexual, 20 anos após o alegado acontecimento – e acabou acusada pela colega Camille Paglia de promover uma “caça às bruxas”. No ano passado, quando completou 50 anos, em Nova York, foi presa no protesto Ocupe Wall Street. 

Recentemente, lançou o livro Vagina, a new biograph, cujo título (Vagina, uma nova biografia, em tradução livre) provocou escândalo. A obra diz que o desejo e o prazer da mulher não estão na vagina ou no clitóris, mas em hormônios e neurotransmissores cerebrais. 

ÉPOCA – Na seção de livros do iTunes, o título de seu livro virou V**. Uma vergonha, não?
Naomi Wolf –
(Risos.) Sim, é uma vergonha. Por outro lado, é uma ilustração perfeita do que o livro trata em alguns capítulos. Termos mais degradantes para o órgão sexual feminino não suscitam tanto escândalo, por não serem rigorosos fisiologicamente. Documentei uma longa história de censura sobre as informações mais básicas da anatomia, a sexualidade e o prazer femininos. Uma repressão que se tornou cristalinamente compreensível para mim. Quanto mais as mulheres aprendem sobre sua anatomia e sexualidade, mais combativas se mostram social e politicamente. Fica mais difícil subordiná-las, e aí mora o perigo. O livro está entre os mais vendidos do iTunes. Acho que o tiro saiu pela culatra...

ÉPOCA – A senhora fala no livro de sua própria anatomia e de sua vida sexual. Pretende mostrar que a fisiologia importa mais que a cultura?
Naomi –
Nunca afirmo que a fisiologia é mais importante que a cultura ou a educação. Simplesmente, parti de uma experiência pessoal: um problema em minha coluna vertebral que afetava diretamente minha vida sexual. Relutei em abordar questões íntimas, por causa do tabu sobre mulheres que discutem abertamente sua sexualidade. Mas não tinha outra opção. Senti-me obrigada a explicar o motivo pelo qual decidi escrever o livro. Entendi que, nesse caso, minha experiên­cia poderia e deveria ser extrapolada. Poucas coisas são tão fortes e convincentes quanto um depoimento pessoal.

ÉPOCA – A vagina é a alma de uma mulher?
Naomi –
Nunca disse que a alma da mulher é sua vagina.

ÉPOCA – Mas essa não acaba sendo uma interpretação do livro?
Naomi –
Para os que apreciam frases de efeito, talvez. Alguns críticos literários, é verdade, tiraram essa conclusão. Problema deles. Como autora da obra, discordo inteiramente. Nunca disse isso, nunca argumentei isso, e o livro não tem esse sentido. Nem mesmo indiretamente.

ÉPOCA – A natureza valoriza o desejo sexual feminino como ferramenta evolutiva? A cultura negou essa ideia por tanto tempo...
Naomi –
Sim. Para mim, a parte mais importante do livro mostra como a ciência documentou o papel do desejo sexual feminino na evolução das espécies e como a cultura tentou inibi-la ao longo da história. Em experiências de laboratório, quando os impulsos sexuais de fêmeas de ratos foram deliberadamente bloqueados, elas se mostraram letárgicas também em outros aspectos do comportamento. Ao estudar a evolução e a sexualidade, fica muito clara a repressão que a cultura exerce sobre o desejo feminino – e exatamente por causa de seu potencial evolutivo.

ÉPOCA – Mulheres são mais inclinadas ao misticismo que homens?
Naomi –
O misticismo feminino foge a meu controle. Não comparo o misticismo feminino com o masculino, pois minha obra é sobre mulheres. Naturalmente, os homens acabam envolvidos, afinal a vida sexual implica ambos. Posso afirmar que o orgasmo desencadeia um formidável alívio na química cerebral feminina. Essa sensação, como inúmeras experiências científicas comprovam, corresponde em parte ao estado de êxtase que algumas situações místicas provocam. Mas é preciso distinguir e separar transcendência e experiências físicas. O orgasmo feminino, o famoso orgasmo múltiplo, realmente é mais variado e versátil que o masculino. Somos “desenhadas” assim. Portanto, potencialmente as mulheres são mais inclinadas àquela experiência que se assemelha a um êxtase transcendental – embora não se confunda com ele. Se você ler a ficção feminina contemporânea, verá quanto as descrições de prazer erótico são associadas a um “arrebatamento” e a uma “desintegração do eu”.

ÉPOCA – O que um fenômeno como o livro Cinquenta tons de cinza revela sobre a sexualidade feminina contemporânea?
Naomi –
A neurociência demonstrou que determinadas conexões cerebrais fazem algumas mulheres sentir-se excitadas e atingir o orgasmo diante de situações como um espancamento. Assim, um best-seller como esse tem a ver não propriamente com masoquismo, mas com uma atração por cenários de dominação. É um lugar-comum. O importante, no sucesso estrondoso desses livros, é que continua sendo um tabu uma mulher dizer em voz alta aquilo que a gratifica sexualmente, sem se sentir culpada ou envergonhada. As leitoras do romance se identificam com a possibilidade de explorar, sem remorsos, sensações fora de uma sexualidade convencional.

ÉPOCA – É viável misturar neurociência e a tradição tântrica?
Naomi –
Não as misturo. As descobertas da neurociência assinalam a relação do estresse como uma causa para a falta ou a escassez de prazer. Parte da população feminina tem dificuldade para atingir o orgasmo. Isso significa que a “revolução sexual” não funcionou para elas. Por outro lado, a tradição do sexo tântrico, que desvaloriza a pressa e realça a importância do “eu”, pode ter algo a nos ensinar, desde que não a reduzamos a uma espécie de “soft pornô” folclórico. Trata-se de realçar aspectos mais emocionais e menos mecânicos do sexo, como o abraço, a carícia ou a dança.

ÉPOCA – Clitóris versus vagina é um dilema tolo?
Naomi –
Mais do que tolo. A ciência mostrou que é um dilema equivocado. A sabedoria convencional menospreza a vagina como fonte de prazer. Mais de 90% das mulheres atingem orgasmo vaginal e clitoriano, estimulando as duas áreas ao mesmo tempo. O “partidarismo” entre regiões eróticas é besteira.

ÉPOCA – Alguns críticos reclamaram que, de uma perspectiva científica, seu livro não traz nada de novo.
Naomi –
A maioria dos estudos que relato é recente e publicada apenas em jornais científicos ou acadêmicos. Os estudos que cito, além de inéditos para o público em geral, nunca tinham sido interpretados politicamente, com uma ótica feminista. Meu livro explica 5 mil anos de estigmatização do prazer feminino.

ÉPOCA – O movimento Ocupe Wall Street acabou virando muito barulho por nada?
Naomi –
De jeito nenhum. Foi e é importante, ao denunciar a fenomenal corrupção entranhada no sistema político e financeiro americano. O movimento se alastrou por várias cidades, apesar da oposição feroz daqueles que se sentiram ameaçados por ele. Houve numerosas detenções, inclusive a minha. Não obstante sua escrupulosa legalidade, pessoas foram agredidas pela polícia e ficaram feridas. Outras permaneceram encarceradas em condições horríveis. O objetivo era criminalizar o movimento como uma forma de “banditismo”.

* O romancista luso-brasileiro Paulo Nogueira é autor de O suicida feliz e O amor é um lugar comum  

Entrevista - Flávio Gikovate





Flávio Gikovate: “No futuro, o que irá determinar a orientação sexual de uma pessoa será seu envolvimento sentimental”.

Em seu novo livro, que será lançado nesta segunda-feira (8), o psiquiatra propõe uma vida sexual sem cobranças e sem rótulos. Para ele, o importante é trazer o sexo para o domínio do amor, independentemente de qual gênero o parceiro seja.

Por Danilo Casaletti

Você é heterossexual? Ou homossexual? Considera-se bissexual? A sexualidade humana norteia-se por esses e outros “rótulos”. Definições que, para o médico psiquiatra Flávio Gikovate, podem interferir na vida sexual das pessoas, além de reforçar preconceitos. Em seu novo livro, Sexualidade sem fronteiras (MG Editora, 136 páginas, R$37,60), Gikovate propõe o fim desses termos (hétero, homo ou bi). O ideal, segundo ele, é falar apenas em sexualidade.

“As pessoas que vivem verdadeiramente de acordo com a sexualidade não têm compromisso com seu passado sexual e podem se movimentar dentro do espectro das possibilidades da sexualidade de modo livre e isento”, diz o psiquiatra. O que significa que, para Gikovate, as pessoas podem, ao longo da vida, relacionar-se com pessoas do sexo aposto ou do mesmo sexo, de acordo com seus desejos. Em entrevista a ÉPOCA, Gikovate fala sobre a teoria que apresenta em seu livro e afirma que nela pode estar a chave para o fim do preconceito e para a experiência do encantamento do amor.

ÉPOCA – No livro, o senhor propõe o fim de uma orientação sexual definitiva, o que, a seu ver, tornaria mais fácil uma pessoa transitar entre seus desejos, sem ser rotulada. Seria uma nova revolução sexual? Ela já está em curso?
Flávio Gikovate -
São os primeiros movimentos ainda, mas essa revolução está em curso. O caminho é longo. Falta a liberdade de exercer o ato sexual de forma lúdica e totalmente desprovida de preocupação com a performance e o desejo de impressionar o parceiro. Falta também entender que o sexo é muito mais rico e gratificante quando vivenciado no contexto de uma relação amorosa de boa qualidade, fundada em afinidades de caráter, gostos e interesses. Uma relação mais parecida com a amizade. Sei que isso ainda é um tanto difícil para a maioria, pois, quando existem essas afinidades, muitas vezes o sexo se mostra menos exuberante. Trazer o sexo para o domínio do amor, desfazendo a tradicional aliança com a agressividade, é um dos grandes desafios da atualidade, independentemente de qual gênero seja o parceiro.

ÉPOCA – Todo mundo pode se sentir atraído por uma pessoa do mesmo sexo ou desejar pessoas de ambos os sexos?
Gikovate -
As pessoas que vivem verdadeiramente de acordo com a sexualidade não têm compromisso com seu passado sexual e podem se movimentar dentro do espectro das possibilidades da sexualidade de modo livre e isento de qualquer norma ou preconceito. Elas vão se fixar em um determinado território, tanto em função de suas convicções e deliberações racionais quanto em decorrência de outro impulso que, na prática, se sobrepõe ao erótico: o encantamento amoroso de ótima qualidade. 

ÉPOCA - Haverá sempre uma escolha principal?
Gikovate -
O sexo é um fenômeno pessoal, auto-erótico. Em suas manifestações mais tradicionalmente masculinas está associado à agressividade (até por razões de procriação). Não são raros os casos em que a escolha do parceiro se dá pela via do desejo sexual e aqueles que assim procederem tenderão a escolher em função dessa associação (heterossexuais norteados pelo desejo têm mais raiva das mulheres – e são amigos dos homens – enquanto que a maioria dos homossexuais tem mais raiva dos homens e são amigos das mulheres). No futuro, o que irá determinar a orientação sexual de uma pessoa será seu envolvimento sentimental. Será homossexual ou heterossexual, conforme a rota do amor. E isso poderá mudar quando se alterar o parceiro sentimental.

ÉPOCA - Há quem opte por sublimar o desejo por pessoas do mesmo sexo. Acha essa prática aconselhável?
Gikovate
- Qualquer tipo de repressão é sempre desinteressante. A pessoa pode muito bem sentir todo tipo de desejo ou vontade de natureza erótica e ter sua prática determinada por suas convicções. Um indivíduo pode sentir vontade de frequentar um travesti, por exemplo, se excitar com essa ideia, se masturbar por meio dessa fantasia, e jamais colocá-la em prática. Não vejo problema algum nisso, posto que o sexo, quando não acoplado ao amor, é fenômeno essencialmente pessoal e as condutas são decididas por cada um. 

ÉPOCA - Na sua proposta, como fica a questão do sentimento versus desejo? Qual a diferença entre gostar de uma pessoa do mesmo sexo e se relacionar sexualmente com uma pessoa do mesmo sexo?
Gikovate -
Nesse processo de evolução, é fundamental separar amor de sexo, entender que o desejo (principalmente visual e masculino) é diferente de excitação (mais voltado para dentro, enquanto que o desejo é dirigido para fora: desejo de algo ou de alguém). As trocas de carícias que são próprias do clima lúdico e governadas pela excitação podem se dar independentemente do gênero do parceiro. Muitas pessoas têm práticas sexuais com parceiros de ambos os sexos - aliás, é curioso observar que a bissexualidade é um dos aspectos da sexualidade menos estudada - enquanto que o envolvimento sentimental acontece sempre com uma pessoa especial, independente do gênero.

ÉPOCA – No livro, o senhor diz que evoluímos rapidamente para um mundo com uma educação unissex. No entanto, continuamos a presenciar atos e manifestações preconceituosas ou homofóbicas. Como uma pessoa mais livre sexualmente deve lidar com isso?
Gikovate -
É um comportamento próximo de como vivem as mulheres atualmente. Elas são mais livres para experimentar as trocas de carícias eróticas com outras mulheres sem que se sintam estigmatizadas, sem que coloquem em dúvida sua feminilidade. O meu livro é um discurso contra o preconceito em geral e, em particular, contra aqueles que dizem respeito à questão sexual. O mundo do futuro não deverá ser governado por eles. Heterossexuais poderão vir a ter parceiros sentimentais e sexuais do mesmo sexo e também homossexuais poderão vir a ter parceiros sentimentais e sexuais do sexo oposto.

ÉPOCA - Há religiões que prometem a “cura” para a homossexualidade. Existem, também, pais que buscam psicólogos ou psiquiatras em busca dessa “cura” para os filhos. O que o senhor pensa sobre isso?
Gikovate
- Sou um médico com 46 anos de experiência clínica. Digo que, nesse assunto, como de resto em todos os outros temas da minha especialidade, o papel do terapeuta é o de ajudar aqueles que o procuram a realizar seus anseios e conseguir alcançar seus ideais. Assim, não se ajuda um indivíduo a realizar o sonho de seus pais. Só se trabalha com o tema da sexualidade quando é essa a vontade explícita e expressa do paciente. O ponto de vista da religião e das famílias não deve interferir nos atos médicos quando eles dizem respeito a pessoas que estão em pleno juízo. Assim, os projetos terapêuticos são construídos em comum acordo entre o médico e o paciente.

ÉPOCA - As religiões, de certa maneira, também influenciam na sexualidade das pessoas?
Gikovate -
Não creio que interfiram mais do que o papel, bem conhecido, de exercerem uma postura repressora de toda prática sexual que não seja diretamente relacionada com o matrimônio e, em especial, a reprodução.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2013/04/flavio-gikovate-no-futuro-o-que-ira-determinar-orientacao-sexual-de-uma-pessoa-sera-seu-envolvimento-sentimental.html

domingo, 7 de abril de 2013

Sexualidade sem Fronteiras



ENTREVISTA

O sexo se tornou uma disputa Em seu mais novo livro, o psiquiatra fala que, hoje, homens e mulheres estão mais preocupados em ter uma ótima performance na cama do que viver uma relação amorosa de qualidade

Por Maria Júlia Lledó 




Elas querem um corpo perfeito. Eles, uma performance digna de astro de filme pornô. Dessa forma, mulheres e homens constroem crenças de que o sexo tem mais a ver com um palco para exibição de "virtudes" que uma expressão espontânea e prazerosa da libido. Nesse cenário contemporâneo, a vivência da sexualidade estaria para lá de acuada. Pelo menos essa é a constatação do pesquisador e psiquiatra Flávio Gikovate. Novamente, o pesquisador se debruça sobre o tema, mais de uma década depois de ter escrito A libertação sexual. No recém-lançado Sexualidade sem fronteiras (MG Editores), toca em temas tabus, provocando mais indagações que conclusões acerca do assunto. Seria perda de tempo para as mulheres tentarem obter um orgasmo vaginal? Estariam as fronteiras entre homossexualidade e heterossexualidade ameaçadas de cair? Polêmico, Gikovate deixa pistas nessa complexa trilha percorrida por homens e mulheres na vivência da sexualidade, desde a infância até a vida adulta.

Na hora h, enquanto os homens se cobram uma ótima performance, as mulheres se cobram por não ter o corpo "perfeito". Como essas cobranças prejudicam o sexo?
Prejudicam muitíssimo e tornam o sexo, que deveria ter um caráter lúdico e de alegre intimidade, em uma disputa, na qual o fundamental é impressionar o parceiro e se mostrar melhor. Isso não foi sempre assim. Até meados do século 20, os homens só se sentiam incomodados quando ficavam com dificuldades em manter ereção suficiente para o contato sexual, e as mulheres se preocupavam muito menos com a aparência física, ao menos no contexto do casamento. Os matrimônios eram para toda a vida. Os homens não tinham qualquer interesse em dar prazer a suas parceiras nem essas viam no sexo algo a mais do que o cumprimento do "dever conjugal".

Por que a aparência física é tão relevante no sexo?
A aparência física feminina sempre foi relevante porque os homens sentem forte desejo visual, ou seja, sentem-se particularmente atraídos sexualmente por mulheres que estejam de acordo com seus padrões de beleza: peso, além do modo como se vestem etc. A aparência física masculina passou a ser tratada como mais relevante de pouco tempo para cá, uma vez que as mulheres passaram a valorizar mais esse aspecto -- não é que sintam desejo visual, valorizam, e isso é diferente. Outros valores continuam a ser, talvez, mais importantes para as mulheres e variam de acordo com seus critérios: condição financeira, nível cultural, virtudes de caráter...

De acordo com o livro, as mulheres são mais livres na vivência da sexualidade. Então, por que muitas estão insatisfeitas com o parceiro?
No livro, registro que as mulheres são mais livres para experimentar a troca de carícias eróticas com outras mulheres sem que, com isso, se sintam estigmatizadas, sem que ponham em dúvida sua feminilidade (como acontece com os homens). A maior queixa das mulheres é relacionada à dificuldade de atingirem orgasmo pela via da penetração vaginal, e isso deriva de um equívoco promovido e estimulado pela cultura -- e também pela psicanálise: o orgasmo natural da mulher é clitoriano, sendo fato que vagina tem inervação insuficiente para provocar esse tipo de descarga. A vagina é um órgão reprodutor e não fonte de prazer erótico -- ao menos do ponto de vista da maioria das mulheres. Foi feita para permitir a passagem de um feto (cerca de 15cm de diâmetro), de modo que se fosse dotada de grande inervação, as dores do parto seriam intoleráveis. Através da estimulação clitoriana feita pelo parceiro, ou através da masturbação, a maioria delas atingem o orgasmo sem problema algum.

Por que estaríamos vivendo um período em que "são muito frágeis as fronteiras entre homossexualidade e heterossexualidade"?
Porque a indústria pornográfica mostra o tempo todo relações entre duas mulheres e um homem, em que elas trocam carícias entre si com naturalidade sem que isso seja tido e tratado como impedimento para as práticas heterossexuais. Os homens entram cada vez mais em sites pornográficos e, ali, encontram filmes que descrevem a intimidade erótica entre dois homens ou um homem e um travesti. Eles se excitam com esse tipo de imagem, o que, por vezes, os deixa em dúvida acerca de sua "heterossexualidade". É sempre bom lembrar que os "clientes" dos travestis são homens heterossexuais! Recebo e-mails de mulheres casadas com mulheres e que, de repente, descobrem que a sua parceira está tendo um caso com um homem. Ou seja, as fronteiras estão se desfazendo. Penso que, no futuro, o que determinará a orientação sexual de uma pessoa será seu envolvimento sentimental: será homo ou hetero de acordo com o parceiro sentimental.
 

Sexualidade sem fronteiras,
da MG Editores, 136 páginas
(R$ 37,40 ou R$ 26,10, o e-book)

Leia a íntegra da entrevista na edição impressa